A falta de uma rotina mínima afeta os relacionamentos e a educação dos filhos

A falta de uma rotina mínima afeta os relacionamentos e a educação dos filhos
Reprodução: Google

O ser humano não é um ser feito para viver sobre a corda bamba das emoções. É por isso que um conjunto mínimo de rotina no seu dia-a-dia é necessário para manter a saúde não apenas dos seus relacionamentos, como da educação dos seus filhos.

Essa noção está presente desde a antiguidade. Os povos nômades, por exemplo, deixaram de ser nômades não por acaso. Eles quiseram se fixar em regiões prósperas com a capacidade de sustentá-los, pois queriam com isso adquirir maior segurança de vida.

É isto o que um conjunto de mínimo de rotinas traz: a sensação de segurança! Crianças precisam disso como referência, especialmente em seus primeiros anos de vida, porque tudo o que para elas se repete vira um modelo a ser aprendido. Quando tudo é volátil, nada se firma e tudo se transforma, isto se reflete sobre o seu emocional, trazendo confusão.

Especialistas em educação infantil no mundo inteiro concordam que a melhor forma de educar uma criança é estabelecendo para ela regras claras e modelos de referência para o cumprimento dessas regras.

Em uma casa onde não há rotinas, ou quando várias pessoas exercem algum poder de autoridade sobre a criança, por exemplo, ela sente-se insegura sobre como proceder, pois em sua mente fica a questão: a quem devo obedecer? A minha mãe, pai, avó, avó, tio ou à vizinha?

A rotina, neste caso, serve como um norte de referência para o desenvolvimento cognitivo da criança, de modo que ela consegue enxergar através disso quais pontos deve seguir, a quem recorrer e como reagir. Não é por acaso que na atualidade, com a “invasão” dos meios de comunicação na relação entre pais e filhos, o número de crianças e adolescentes emocionalmente problemáticos cresceu assustadoramente.

Isso acontece exatamente porque essa “invasão” tecnológica não é diferente da que muitas vezes ocorre através de pessoas dentro da sua família, pois em ambos os casos a consequência é a mesma: a quebra de uma rotina essencial para a manutenção da saúde doméstica.

Rotina é comportamento

Diferentemente do que muitos podem imaginar, o conjunto mínimo de rotina em uma casa não está apenas nos afazeres, mas no comportamento, visto que estes antecedem tudo o que fazemos.

O horário que você vai dormir e acordar, fazer suas refeições, estudar, assistir TV, etc., são todos frutos do seu comportamento. A rotina mínima, quando existente, estabelece um modelo de ação que serve como referência para você e principalmente para seus filhos, os quais dependem muito mais disso.

Com a rotina, a criança “passa a se organizar mentalmente e começa a elaborar sozinha novas repetições”, explica o psicólogo Breno Rosostolato, professor da Faculdade Santa Marcelina (FASM), segundo o Pais e Filhos.

Quando esse modelo é constantemente “quebrado” por outros fatores, quer seja por desorganização, indisciplina ou interferências externas, o ambiente familiar se torna desequilibrado de modo que você é afetado, ainda que não perceba explicitamente.

Crianças são drasticamente afetadas com o desequilíbrio familiar, tendendo a trazer para os seus comportamentos e o emocional o reflexo daquilo que elas observam na convivência com os adultos.

Relações

No âmbito das relações, amorosas ou não, a falta de uma rotina mínima também é extremamente prejudicial. Cabe aqui citar relações entre pais e filhos e parentes em geral. Na esfera amorosa, no entanto, a falta de um “continuum” tende a enfraquecer o vínculo do casal.

Isso, porque, o ditado popular “quem casa quer casa” não existe por capricho, mas por necessidade prática. O casal requer tempo de vida e espaço a dois para que possa adquirir a sua própria experiência de vida, porque é através disso que surge a maturidade emocional e o consequente fortalecimento da relação.

Quando fatores externos à vida do casal se impõem sobre o seu dia-a-dia, quer por desorganização pessoal, falta de prioridade, imaturidade ou interferência constante de terceiros em sua casa, tudo o que poderia surgir como experiência natural da vida do casal deixa de existir.

Desde pequenas vivências, como um café da tarde tomado a dois, um filme visto em momento especial, passeio no parque ou até grandes desafios, como os cuidados prestados durante um momento de angústia e até discussões, por exemplo, são afetados quando não existe um conjunto mínimo de rotina estabelecido no ambiente familiar.

O enfraquecimento dos vínculos relacionais ocorre em todas as relações quando não há esse conjunto de rotina, especialmente quando a inexistência desse equilíbrio familiar é ocasionada pelo desequilíbrio das próprias relações familiares.

Isso, porque, a relação com o “outro” deixa de ser construtiva quando este passa a ser um fator de desequilíbrio no contexto familiar, e isso muitas vezes ocorre, obviamente, não porque os envolvidos possuem consciência dessa realidade, mas porque eles não reconhecem os próprios limites.

“Sem as rotinas, a vida familiar pode ser um autêntico caos, por isso é necessário tê-las, porque, além do mais, todos os membros da família se sentirão seguros e com uma estrutura bem organizada”, explica a psicopedagoga María José Roldán, segundo o Guia Infantil.

Contextos especiais

Muitas pessoas podem se questionar: como é possível manter um conjunto mínimo de rotina diante do tratamento de uma doença recorrente pessoal ou de terceiros, por exemplo? Ora, a resposta é simples: não só é possível, como ainda mais importante!

Primeiro é preciso entender que a existência da doença por si só não deve ser encarada como alteração da rotina. Isso, porque, por ser algo que não escolhemos enfrentar, a enfermidade se torna uma possibilidade natural da vida humana.

Neste caso, a própria doença integra o conjunto de rotina familiar, e é este o entendimento que a família precisa adquirir. Diante disso, os envolvidos devem se questionar: quais são os afazeres e momentos da vida que podemos transformar em rotina agregada?

A rotina agregada nesse contexto são os momentos de “normalidade”, geralmente caracterizados pelos intervalos entre um exame e outro, tratamento e outro. Esse espaço de tempo em que o indivíduo não requer maiores cuidados é o momento em que a família, o casal, os filhos, etc., devem explorar com o conjunto mínimo de rotina necessário.

Observe que, para a saúde familiar, saber discernir esses momentos é crucial, pois requer bom senso e o reconhecimento de limites, pois caso contrário o que já é um momento difícil se torna ainda pior. Entenda:

Se a enfermidade por si mesma já representa uma mudança de expectativa em relação à rotina da família, o que dizer quando ao lado dela, nos momentos em que não se requer maiores cuidados em relação a isso, o ambiente familiar continua conturbado?

Note, portanto, que o contexto pode ser duplamente estressante para todos, pois se de um lado temos uma preocupação com a saúde que requer mudanças em momentos especiais, por outro há um desequilíbrio de ordem familiar que não permite vivenciar a rotina esperada nos intervalos de “sossego”.

Conclusão

O conjunto mínimo de uma rotina familiar é crucial para a saúde mental dos membros da família, para a educação das crianças e para o desenvolvimento de um amadurecimento emocional capaz de oferecer resistência perante os desafios da vida.

Nos contextos especiais a rotina é ainda mais necessária, pois ela serve como um contraponto aos momentos em que situações adversas naturais da vida já causam, por si só, desgaste emocional e físico.