Dizer que ter filhos é “um inferno” é imaturidade e egocentrismo, diz psicóloga

Dizer que ter filhos é
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A psicóloga Marisa Lobo, candidata à Prefeitura de Curitiba este ano, se manifestou sobre uma declaração recente do humorista Fábio Porchat, após ele dizer que “é um inferno ter filhos”, causando polêmica devido à associação de crianças com algo considerado maligno pelos cristãos.

Segundo Marisa, a visão por trás da declaração de Porchat reflete a imaturidade da atual geração, assim como egocentrismo. Muito embora a psicóloga não tenha citado no nome do humorista, ficou claro que ela se refere ao mesmo em seu artigo publicado no Opinião Crítica.

“O que vemos nisso é o adiamento das responsabilidades da vida para os jovens, algo que está estritamente relacionado à imaturidade dessa geração. Esse olhar superprotetor que chega a ser incapacitante sobre os jovens é o que reforça tamanha imaturidade”, argumentou Marisa.

A psicóloga lembrou que em 2018 pesquisadores passaram a defender o aumento da idade limite da adolescência para 24 anos, o que segundo ela reforça a sua análise sobre os aspectos emocionais imaturos dos jovens de hoje diante das responsabilidades, como ter filhos.

“É a extensão da figura da mãe superprotetora que prejudica o desenvolvimento emocional dos filhos ao nível da cultura. É a Síndrome de Peter Pan sendo culturalmente estabelecida como norma, fazendo assim com que a maturidade seja cada vez mais adiada”, ressaltou.

Egocentrismo

Para Marisa Lobo, o medo de ter filhos também pode refletir certo egocentrismo, visto que a criação de crianças implica em doação, sacrifício e entrega pessoal a outro ser humano.

“De onde vem esse olhar? De jovens que cresceram pensando que a vida consiste em buscar a todo momento a satisfação própria”, diz Marisa, fazendo um recorte da fala de Porchat para ilustrar o seu raciocínio.

“Chamo atenção para a parte onde ele diz ter ‘medo de um filho atrapalhar’. Em outras palavras, o receio de ver abalada a sua rotina de suposta harmonia com a esposa é tão grande que a possibilidade de ter um filho virou sinônimo de medo, atrapalho e ‘inferno’.”

“É uma visão egocêntrica, porque ter filho é justamente a doação de si mesmo em função de outro ser humano. É ter a capacidade de abdicar, se preciso, da própria ‘harmonia’ para cuidar de alguém. É se doar em mais uma relação. É tirar de si para dar aos filhos”, diz a psicóloga.

Por fim, Marisa explica que não ter filhos é uma opção, inclusive a melhor no caso dos pais que não se consideram preparados para lidar com tamanha responsabilidade. Entretanto, ela frisa que no caso de Porchat à associação da criação dos filhos ao “inferno” foi algo infeliz que ultrapassou o limite da mera opinião sobre a escolha de ter ou não filhos.

“Infelizmente, a pessoa demonizou a criação dos filhos e até mesmo os filhos por tabela, como se as crianças fossem responsáveis por trazer o “inferno” para dentro dos lares, o que não é verdade”, disse Marisa. “Portanto, precisamos saber separar a simples escolha de não querer ter filhos da crítica à criação dos filhos”, conclui.